Psicologia

29/01/2018

Uma Mochila me ensinou a criar seres livres!

Apenas uma mochila feita a mão. Uma mochila de couro cru confeccionada e pintada pelos pais. Uma mochila artesanal, fora “da moda”, materiais naturais; uma mochila sustentável.

Começamos, meu marido e eu, a participar da confecção da mochila da nossa filha, num grande encontro de pais. Os pais antigos, que já tinham passado por isso, auxiliando os novos pais, evidentes por seus rostos ansiosos. Com a estrutura pronta fomos para a casa e fizemos a arte final. Customizamos a mochila: pintamos, colorimos e envernizamos o couro.

A mochila está pronta e agora consigo perceber que não é apenas uma mochila. Isso mexeu profundamente comigo. Tudo isso é uma preparação, uma compreensão da nova etapa que se inicia, e até mais, da função dos pais, nesta grande jornada, de criar seres livres.

Os pais vão preparando a estrutura, a base e a formação essencial para a jornada do filho. O importante desta base é ser forte, ter os compartimentos necessários, ser bem costurada e segura. Algumas vezes a ajuda de quem já passou por isso nos auxilia e acalma a ansiedade. Segurança e força são a essência de uma base bacana para a formação de seres íntegros. Mas não deve faltar a alegria: cores, desenhos, adendos que alegram e dão leveza. O lúdico e a fantasia que tornam a vida mais criativa e extasiante. As crianças adoram o riso, a cocega, o aconchego e o amor que são dados com a leveza de uma brincadeira. Parece deixar mais leve o fardo de crescer. Assim a mochila ganha cores e desenhos!

Com segurança, força, alegria e amor criamos então uma Mochila Vazia. E agora?

Agora é hora de lançar este ser ao mundo e ir deixando que a escola, outras pessoas, experiências, aventuras e conhecimentos vão preenchendo este grande espaço. O espaço do ser, o espaço do vir-a-ser, como Nietzsche chamaria. O grande espaço da liberdade de criar e recriar através das experiências. E assim, não são mais somente os pais que vão colocando e acumulando “coisas importantíssimas” na mochila dos filhos. Mas são eles que vão para a vida, procurando preencher e esvaziar-se sempre que necessário.

E depois disso, o que me resta como mãe?

Saber que estarei sempre de agulha e linha na mão para ajudar minha filha a concertar, remendar e colar sempre que algo danificar a estrutura. Talvez por muito peso, talvez por um golpe duro, talvez simplesmente por desleixo...a vida é a vida para mim e para ela. Não terá como evitar todos os danos, mas deixarei sempre as portas abertas para um novo concerto. Poderei também aconselhar, passar minhas experiências, ensinamentos e conhecimentos, mas cabe a ela saber se guardará em sua mochila ou deixará de lado.

Talvez esteja um pouco emotiva, afinal Sophie só tem seis anos. Mas já deixo ela na porta da escola com a mochila vazia, aguardando ansiosamente o horário da saída para ver o que tem lá dentro.