Psicologia

09/02/2017

Liberdade de Sentir

Se pudessem ver a beleza que vejo em nós. Nós, humanos como somos, demasiadamente humanos. Choramos, rimos, dançamos, retraímos, silenciamos e falamos. Nós sentimos! A beleza do sentir é comovente. Percebemos, recordamos, refletimos e sentimos. Me deem liberdade de ser humana. Quero me libertar das amarras que cerceiam minha humanidade e me tornam uma máquina produtiva.


Saber lidar com os imprevistos, está sendo encarado, atualmente, como não sentir.

“Fulaninha está lidando muito bem com a separação, não se abalou.” “ Sicrana está lidando muito bem com o diagnóstico de câncer, está confiante, não parou de fazer nenhuma de suas atividades, está como se nada estivesse acontecendo.” “Zé ninguém perdeu seu emprego mas está lidando muito bem com isso, nem o vi reclamar, nem chorar...”

Infinitos são os exemplos de que a percepção social do que é lidar bem com as dores da vida é não senti-las.


Então, hoje vou pedir licença para me tornar humana e ter o direito de não lidar bem com os imprevistos. Quero poder sofrer, chorar, gritar e me arrepender. Quero poder sentir a dor daqueles que me deixaram, e quero poder me desesperar quando vejo a crise mundial. Quero sofrer pelos animais inocentes que morrem somente para que nos alimentemos. Quero poder viver o luto da morte de meu pai. Ficar embaixo dos lençóis pois fui rejeitada pelo meu grande amor. Aceitar minha desesperança quando um câncer me abate nos meus 30 anos. Quero poder gripar e ficar encamada. Quero poder envelhecer e sentir orgulho de minhas rugas e cabelos brancos. Engordar quando paro de fumar. Enfim, quero ser gente.


No consultório minha principal função é ser anfitriã da dor. Recebê-la com o respeito que merece. No consultório conversamos diretamente com o Humano em nós. Vamos ouvir o que a dor tem a dizer, o que a crise veio nos mostrar, o que o arrependimento traz como novos caminhos, compreender as fases naturais de um processo de perda e luto, podemos chorar, rir, gritar e odiar. No consultório meu papel é ensinar que o sofrimento e a tristeza são tão belos e profundos como a noite de lua nova.


Onde aprendemos que a beleza é plástica? Remédios e mais remédios para quê? Não sentir?


Vamos aprender a sustentar o sofrimento e com ele caminhar. Sem apego a dor, sem menosprezar sua valia e sem se identificar em demasia.


A saúde é o pulsar. A vida pulsa. Sol e nuvem, dia e noite, primavera e outono, chuva e seca, e assim como a natureza, temos nossos ciclos. Nem fixar em um lado, nem no outro...apenas pulsar como um pêndulo suave sem resistência ao vento que o empurra. Venderam a nós que como somos não é bom o suficiente e assim precisamos melhorar. Eu digo: bem vindo humano em mim, bem vindo humano em nós. Vamos apreciar nossa beleza. A beleza de nossas imperfeições.